Inteligência artificial na contabilidade: eficiência, análise e o novo papel do contador
A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito às empresas de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de diferentes áreas das organizações. Na contabilidade, esse movimento já pode ser observado na automação de tarefas, no tratamento de informações, na análise de dados e no apoio a atividades que antes exigiam maior dedicação operacional das equipes.
SANTILIANO CONTABILIDADE


A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito às empresas de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de diferentes áreas das organizações. Na contabilidade, esse movimento já pode ser observado na automação de tarefas, no tratamento de informações, na análise de dados e no apoio a atividades que antes exigiam maior dedicação operacional das equipes.
No Brasil, esse processo já apresenta números relevantes. Pesquisa realizada pela IOB em parceria com o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e a Fenacon, divulgada em 3 de setembro de 2026, ouviu 393 profissionais de todas as regiões do país. Entre os participantes, 78% afirmaram utilizar ferramentas de inteligência artificial no trabalho pelo menos uma vez por semana e, dentro desse grupo, 53% disseram utilizar a tecnologia diariamente. A busca por produtividade e a redução das atividades operacionais estão entre os fatores que impulsionam essa adoção.
Os próprios desafios relatados pelos profissionais ajudam a entender por que a tecnologia vem ganhando espaço. Na pesquisa, 34% apontaram o excesso de retrabalho manual como uma dificuldade da rotina, enquanto 20% mencionaram a falta de tempo para análise e consultoria. A dificuldade de integração entre sistemas e dados foi indicada por 17% e os erros humanos em tarefas repetitivas por 15%.
Esses dados mostram uma oportunidade importante para a atividade contábil. Uma parcela significativa do trabalho envolve organização, conferência, classificação, cruzamento e interpretação de grandes volumes de informações. Quando ferramentas tecnológicas conseguem apoiar parte dessas atividades, o profissional pode direcionar mais tempo para situações que exigem análise, avaliação de contexto e interação com o cliente.
Na prática, a inteligência artificial pode ser aplicada em diferentes etapas do trabalho contábil e financeiro. Ela pode auxiliar na identificação de inconsistências, organização de documentos e informações, comparação de dados, elaboração de análises preliminares, identificação de padrões e preparação de informações para acompanhamento gerencial. Em áreas financeiras, também pode contribuir para projeções, planejamento de cenários, controle de custos e análise de desempenho.
A expansão dessas ferramentas, entretanto, não significa que toda utilização de inteligência artificial produza automaticamente ganhos para a empresa. O estudo Finance Trends 2026, da Deloitte, mostra uma diferença importante entre adoção e geração efetiva de valor. Entre os líderes financeiros pesquisados globalmente, 63% disseram já utilizar plenamente soluções de IA em suas funções, mas apenas 21% afirmaram perceber valor claro e mensurável dos investimentos realizados.
Essa diferença chama atenção para um aspecto central da transformação digital. A tecnologia precisa estar associada a processos organizados, objetivos definidos e informações confiáveis. Uma ferramenta pode processar rapidamente um grande volume de dados, mas a velocidade não corrige problemas existentes na origem dessas informações. Cadastros inadequados, classificações incorretas, ausência de integração entre sistemas e dados incompletos continuam comprometendo a qualidade da análise.
Esse cuidado é especialmente relevante na contabilidade, porque as informações produzidas pela área influenciam obrigações fiscais e tributárias, demonstrações contábeis, controles financeiros e decisões empresariais. O próprio CFC, ao comentar os resultados da pesquisa sobre IA, reforçou a relação entre avanço tecnológico, segurança, qualidade dos dados e responsabilidade profissional.
Nesse contexto, a inteligência artificial também contribui para uma mudança gradual no papel do contador. A capacidade técnica necessária para compreender normas, interpretar informações e assegurar a consistência dos registros permanece fundamental, mas passa a conviver com uma demanda crescente por competências relacionadas à análise de dados, tecnologia, comunicação e compreensão do negócio.
Essa transformação acompanha um movimento mais amplo das áreas financeiras. O Finance Trends 2026 identifica a ampliação da participação dos líderes financeiros na estratégia das organizações e aponta a combinação entre competências financeiras e tecnológicas como uma das tendências relevantes para a função. A tecnologia, portanto, não elimina a necessidade de conhecimento especializado. Ela altera a forma como esse conhecimento pode ser utilizado.
Para as empresas, essa evolução pode aumentar o valor das informações contábeis quando elas deixam de ser observadas apenas como registros de acontecimentos passados. Dados sobre faturamento, custos, despesas, margens, tributos, folha de pagamento, resultados e fluxo financeiro, quando organizados e analisados de forma integrada, ajudam a compreender melhor a situação da operação e podem oferecer suporte para planejamento e decisões futuras.
O contador passa, assim, a ter condições de dedicar maior atenção à interpretação dessas informações, à identificação de riscos, à avaliação de impactos e à orientação dos gestores. Isso exige conhecimento do negócio e capacidade de compreender o que os números representam dentro da realidade de cada empresa. Uma mesma variação financeira pode ter causas e consequências diferentes dependendo do setor, da estrutura de custos, do momento da organização e de seus objetivos.
Também é necessário estabelecer critérios para o uso responsável da inteligência artificial. Informações empresariais, contábeis, fiscais e trabalhistas podem envolver dados confidenciais e sensíveis. A adoção dessas ferramentas deve considerar segurança da informação, governança, controle de acesso, confiabilidade das respostas e revisão profissional. A utilização da tecnologia não transfere automaticamente a responsabilidade pelas informações e decisões produzidas a partir dela.
A tendência, portanto, não aponta para uma escolha entre tecnologia e conhecimento contábil. O desenvolvimento da profissão está relacionado à capacidade de combinar os dois. A automação pode reduzir atividades repetitivas, a inteligência artificial pode ampliar a capacidade de processamento e análise e os sistemas podem integrar volumes cada vez maiores de informações. Ao profissional continuam cabendo a avaliação crítica, a interpretação, a contextualização e a responsabilidade técnica.
Para a Santiliano, acompanhar essa evolução significa utilizar a tecnologia como apoio para tornar os processos mais eficientes e ampliar a capacidade de compreender as informações das empresas. A experiência profissional e o conhecimento da realidade de cada negócio permanecem essenciais para transformar dados em orientação e contribuir para uma gestão mais organizada e segura.
A inteligência artificial já está modificando a atividade contábil, mas seu impacto mais relevante tende a estar menos na substituição do profissional e mais na mudança da forma como seu tempo, conhecimento e capacidade de análise são utilizados. À medida que tarefas operacionais passam a contar com maior suporte tecnológico, cresce também a possibilidade de uma atuação contábil mais analítica, próxima da gestão e conectada às decisões empresariais.
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Fontes consultadas: Conselho Federal de Contabilidade — Pesquisa sobre IA na rotina dos profissionais da contabilidade | Deloitte — Finance Trends 2026

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